Instituto Politécnico do Cávado e Ave
EMERGÊNCIAS
IPCA























Autores / Authors
Alexandra de Almeida Campos Alícia Oliveira Pinto Ana Beatriz Fernandes de Sousa Andreia Leiras Ariana Dias Arnaldo Moreira Beatriz Oliveira Beatriz Rainha Catarina Vaz Daniela Saraiva Diogo Oliveira Dione Stygian Melainis Inês Araújo Campos Inês Lima Inês Oliveira Figueiredo Jullya Rodrigues Laila Medeiros Leonardo da Silva Gonçalves Letícia Silva Luiz Santos Maria Amélia Machado Sá Maria João Araújo Lopes Marina Pinto Marta Sofia Coelho Martins Pedro Machado Pedro Toledo de Sá Rita Beatriz Pereira Lopes Lopes Rodrigo Rodrigues Vanessa Catarina Montes Moreira
Por um fio
Os trabalhos apresentados pelos estudantes do Curso Técnico Superior Profissional em Design de Moda do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, no contexto da Bienal Contextile, partem do tema: “Por um Fio” como território comum de investigação material, simbólica e conceptual. Esta expressão, profundamente inscrita no imaginário coletivo, remete para estados de limite, suspensão, fragilidade e iminência. Estar “por um fio” é habitar uma condição instável: entre a queda e a resistência, entre a rutura e a reparação, entre a perda e a possibilidade de permanência.
A partir deste ponto de partida, cada estudante desenvolve uma leitura própria, explorando o fio não apenas como elemento físico, mas como dispositivo poético e crítico. O fio cose, prende, sustém, liga, delimita e repara. Pode ser sinal de dependência, de memória, de tensão ou de cuidado. Pode representar uma ligação afetiva, uma ferida ainda aberta, uma tentativa de cura, uma estrutura prestes a romper-se ou uma força quase invisível que impede a queda definitiva. Nas diferentes propostas, o fio transforma-se, assim, numa metáfora da condição humana e da forma como o indivíduo se constrói através de vínculos, perdas, marcas, experiências e resistências.
O conjunto de obras evidencia uma aproximação expandida ao design de moda e ao têxtil, ultrapassando a dimensão funcional do vestuário para entrar num campo de experimentação plástica, narrativa e conceptual. Materiais reaproveitados, tecidos, linhas, bordados, nós, rasgos, costuras, arames, estruturas suspensas e superfícies fragmentadas tornam-se meios de pensamento visual. A matéria deixa de ser apenas suporte e passa a agir como linguagem, permitindo tornar visíveis realidades frequentemente silenciosas: a vulnerabilidade emocional, o trauma, a exposição social, a memória, o destino, a dor, a esperança e a consciência ecológica.
Muitas das propostas centram-se no corpo enquanto lugar de tensão e inscrição. O corpo aparece suspenso, oculto, fragmentado, aprisionado ou atravessado por fios que simultaneamente o sustentam e o condicionam. Esta ambivalência é fundamental: aquilo que prende pode também proteger; aquilo que denuncia a fragilidade pode revelar uma forma de resistência. Neste sentido, os trabalhos não tratam a vulnerabilidade como fraqueza, mas como matéria sensível de reflexão sobre a existência, a identidade e os processos de reconstrução interior.
A participação destes trabalhos na Contextile reforça a pertinência do têxtil como campo interdisciplinar, situado entre arte, design, moda, matéria e pensamento crítico. Neste contexto, os estudantes confrontam os seus processos com um espaço de criação contemporânea onde o fazer manual, a experimentação material e a investigação conceptual se cruzam. Entre fios que ligam e fios que aprisionam, entre estruturas frágeis e gestos de reparação, entre matéria e significado, os estudantes constroem narrativas visuais que interrogam aquilo que nos forma, nos sustém e nos transforma. Cada obra apresenta uma voz própria, mas todas partilham a mesma inquietação: compreender de que modo, mesmo perante a instabilidade, continuamos ligados à vida, aos outros e ao mundo.
By a Thread
The works presented by students from the Higher Professional Technical Course in Fashion Design at the Instituto Politécnico do Cávado and Ave, within the context of the Contextile Biennial, are based on the theme “By a Thread” as a shared territory for material, symbolic and conceptual investigation. This expression, deeply rooted in the collective imagination, evokes states of limit, suspension, fragility and imminence. To be “by a thread” is to inhabit an unstable condition: between falling and resisting, between rupture and repair, between loss and the possibility of continuity.
From this starting point, each student develops a personal reading, exploring thread not only as a physical element but also as a poetic and critical device. Thread stitches, binds, supports, connects, defines and repairs. It can signal dependence, memory, tension or care. It can represent an affective bond, an open wound, an attempt at healing, a structure on the verge of breaking, or an almost invisible force that prevents a final fall. In the different proposals, thread thus becomes a metaphor for the human condition and for the way the individual is shaped through bonds, losses, marks, experiences and acts of resistance.
The body of works reveals an expanded approach to fashion design and textile practice, moving beyond the functional dimension of clothing into a field of plastic, narrative and conceptual experimentation. Reclaimed materials, fabrics, threads, embroidery, knots, tears, seams, wire, suspended structures and fragmented surfaces become means of visual thought. Matter ceases to be mere support and begins to act as language, making visible realities that are often silent: emotional vulnerability, trauma, social exposure, memory, destiny, pain, hope and ecological awareness.
Many of the proposals focus on the body as a site of tension and inscription. The body appears suspended, concealed, fragmented, confined or crossed by threads that both support and constrain it. This ambivalence is essential: what restrains may also protect; what reveals fragility may also disclose a form of resistance. In this sense, the works do not treat vulnerability as weakness, but as sensitive material for reflection on existence, identity and processes of inner reconstruction.
The participation of these works in Contextile reinforces the relevance of textiles as an interdisciplinary field situated between art, design, fashion, material practice and critical thought. In this context, the students bring their processes into contact with a contemporary creative space in which making by hand, material experimentation and conceptual research intersect. Between threads that connect and threads that bind, between fragile structures and gestures of repair, between matter and meaning, the students build visual narratives that question what forms us, sustains us and transforms us. Each work speaks in its own voice, yet all share the same concern: to understand how, even in the face of instability, we remain connected to life, to others and to the world.
Polytechnic Institute of Cávado and Ave