Ana Vieira

PT

Ana Vieira (1940-2016), nasceu em Coimbra e cresceu na ilha de São Miguel, nos Açores. Vai para Lisboa e licencia-se em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa em meados dos anos sessenta. Desde o início o seu processo e percurso artístico deriva da pintura e procura outras formas de expressão e territórios híbridos entre desenho, escultura e instalação.

Expondo em mostras colectivas desde 1965, realiza a sua primeira individual – Imagens ausentes – em 1968, na Galeria Quadrante (Lisboa). Participou na célebre mostra Alternativa Zero, organizada por Ernesto de Sousa em 1977. A sua obra está representada em diversas colecções, designadamente na do Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian e na Fundação de Serralves, instituição que, em 1998, lhe dedicou uma exposição antológica. 

Em 2010, apresentou no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a exposição Muros de Abrigo/Shelter Walls, e em 2014, a exposição Inquietação. Em 1985, foi galardoada com o prémio conjunto da AICA – Associação Internacional de Críticos de Arte e da SEC – Secretaria de Estado da Cultura. Repetidas vezes, colaborou com companhias teatrais na construção dos figurinos e cenários das suas peças; de uma colaboração com os Artistas Unidos nasceu a vídeo-instalação “Casa Deshabitada”, apresentada em Lisboa e no Porto em 2004 e 2005, respectivamente. O seu trabalho está representado em diversas colecções, como as do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação de Serralves e do Musée Cantonal des Beaux Arts de Lausanne, da Fundação EDP e da Fundação Carmona e Costa.

Sobre a obra em exposição de Ana Vieira:

é a partir das memórias de infância, da casa, do sonho, dos objectos do quotidiano e da imaginação que o trabalho de Ana Vieira se desenvolve, num constante desvio ao suporte do quadro pintado, em busca de construções cénicas e teatrais.

Os “Perfis “e “Silhuetas” e mais tarde os “Ambientes” constituem a passagem do seu trabalho sobre o processo da pintura, a três dimensões, fugindo da imagem (a duas dimensões) e, nestes últimos, adicionando o corpo e a imagem porque, segundo Ana Vieira, “não se vê só com os olhos mas também com o corpo todo”. 

Incorpora o têxtil numa primeira série de “Ambientes” realizados entre 1971, 1972 e 1973, “Sala de Jantar / Ambiente” (1971), “Vénus de Milo / Ambiente” (1972), “Casa / Ambiente” (1972) e mais tarde nas “Caixas-Objectos” (1972-74). Os elementos e ícones do habitar por vezes isolam-se como no caso da Mesas-paisagem (1973) e Objecto-Porta (1975) e Janelas Diaporama (1978). Por sua vez, o “Corredor” de 1982, estrutura têxtil à escala real, já traduz legado de pesquisas anteriores.

A obra apresentada nesta exposição, “Casa / Ambiente” (1972) é composta a partir de uma mistura do interior com o exterior, separada por uma membrana têxtil diáfana, com o jogo entre o objeto real e o virtual, o cheio e o vazio, a luz e a falta dela e a integração de elementos da natureza. Nela podemos observar a simulação de uma sala de estar com a incorporação de um sofá que se coloca por baixo de umas nuvens e sobreposta com o tecido que mescla o exterior – a árvore, o jardim – com o interior fisicamente exposto. O tapete, a cadeira, o monte de terra com uma pequena planta, objetos físicos, que se interpelam com as várias camadas de tecido que alimentam a junção do exterior e do interior. 

No trabalho de Ana Vieira, entre a transparência e opacidade, vemos a libertação de imagens e objetos da sua própria existência material e quotidiana, transpondo-nos para cenografias teatrais, obrigando-nos a circundar a “casa” entrando nela através do olhar. 

ENG

Ana Vieira (1940-2016), was born in Coimbra and grew up on the island of São Miguel, in the Azores. She moved to Lisbon and graduated in Painting from Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa in the mid sixties. From the very beginning, her artistic process and path has derived from painting and sought other forms of expression and hybrid territories between drawing, sculpture and installation.

Exhibiting in collective shows since 1965, she holds her first individual exhibition – Imagens ausentes – in 1968, at Galeria Quadrante (Lisbon). She participated in the celebrated show Alternativa Zero, organized by Ernesto de Sousa in 1977. Her work is represented in various collections, including the Centro de Arte Moderna – Calouste Gulbenkian Foundation and the Serralves Foundation, an institution that, in 1998, dedicated an anthological exhibition to her. 

In 2010, she presented the exhibition Muros de Abrigo/Shelter Walls at Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, in Lisbon, and in 2014, the exhibition Inquietação. In 1985, she was awarded the joint prize of AICA – International Association of Art Critics and SEC – Secretary of State for Culture. Repeatedly, she has collaborated with theater companies in the construction of costumes and sets for their plays; from a collaboration with Artistas Unidos was born the video-installation “Casa Deshabitada”, presented in Lisbon and Porto in 2004 and 2005, respectively. Her work is represented in several collections, such as those of the Centro de Arte Moderna (CAM) of the Calouste Gulbenkian Foundation, the Serralves Foundation and the Musée Cantonal des Beaux Arts de Lausanne, the EDP Foundation and the Carmona e Costa Foundation.

About the work on display by Ana Vieira:

it is from childhood memories, the house, dreams, everyday objects and imagination that Ana Vieira’s work develops, in a constant deviation from the support of the painted picture, in search of scenic and theatrical constructions.

The “Profiles” and “Silhouettes” and later the “Environments” constitute the passage of her work on the painting process, in three dimensions, escaping from the image (in two dimensions) and, in the latter, adding the body and the image, because, according to Ana Vieira, “one sees not only with the eyes but also with the whole body”.  

She incorporates textiles in a first series of “Ambiences” made between 1971, 1972 and 1973, “Dining Room / Ambience” (1971), “Venus de Milo / Ambience” (1972), “House / Ambience” (1972) and later in the “Boxes-Objects” (1972-74). The elements and icons of inhabiting are sometimes isolated as in the case of Tables-Landscape (1973) and Object-Door (1975) and Diaporama Windows (1978). In turn, 1982’s “Corridor”, a full-scale textile structure, already translates the legacy of previous researches.

The work presented in this exhibition, “House / Environment” (1972) is composed from a mixture of interior and exterior, separated by a diaphanous textile membrane, with the play between the real and the virtual object, the full and the empty, the light and the lack of it and the integration of elements of nature. In it we can observe the simulation of a living room with the incorporation of a sofa that is placed under some clouds and overlaid with the fabric that blends the outside – the tree, the garden – with the physically exposed inside. The rug, the chair, the mound of earth with a small plant, physical objects that interpellate with the several layers of fabric that feed the junction of the exterior and the interior. 

In Ana Vieira’s work, between transparency and opacity, we see the liberation of images and objects from their own material and daily existence, transposing us to theatrical sceneries, forcing us to surround the “house”, entering it through our eyes.